Sexta-feira, 20.01.12

À Fava, Camaradas!

Há uns anos — há uns tempos — não olhava à minha volta. Vivia fechada em mim própria. Trancada nos meus próprios problemas. Acorrentada a um passado inclemente e atrelada a um futuro exasperante, distante e frio.

Até que, por diversos motivos, acordei. E me vi subitamente mergulhada nas águas gélidas da vida. E fiquei desolada. Excitada e triste.

Hoje em dia, leio avidamente jornais e revistas da actualidade, vejo telejornais e assisto a debates. Não perco pitada. Sigo religiosamente as actualizações de políticos de várias cores, jornais de diferentes tendências e gentes de diversos passos da vida. E sinto-me perfeitamente enregelada. Assustada. Desanimada.

Porque, afinal de contas, sair da concha e vir cá para fora é um grande choque. A vida que julgávamos tão sincera e pura é, afinal, suja e cínica.

A política, para mim, parece um ridículo jogo do Monopólio. Ou pior, do Risco. Um Pictionary pervertido. E o pior é que ninguém à minha volta parece ter essa mesma noção.

Bem sei que acordei tarde. Que o mundo já há muito que está podre. Mas caramba! Eu, na minha grande infantilidade, julgava que as pessoas tinham mais juízo. Agiam com motivos bem fundamentados. Para bem de todos. Mas não. Afinal, não.

No fim de contas, as teorias da conspiração surgem-me no horizonte como ameaças bem reais. Tempestades daquelas bem negras e ameaçadoras que julgamos não poderem chegar a nós, mas que nos arrasam por completo. Porque não nos acautelámos. Porque as vimos ao longe e tivemos a arrogância, o descuido ou a insensatez de achar que jamais chegariam a nós. Mas chegam. E atingem-nos com muito mais intensidade do que alguma vez poderíamos imaginar.

Sim. Adoro metáforas, imagens e o que seja.

A verdade é que o mundo se precipita para o… Inferno. Porque o destruímos a um ritmo cada vez mais acelerado e porque nos autodestruímos, como organismo vivo que somos, no nosso conjunto, chamado humanidade.

Serei eu de verdade demente? Serei eu uma visionária? O que vejo nos telejornais (de diferentes cadeias nacionais e internacionais) e o que leio nas diferentes publicações de países diferentes choca-me e assusta-me. Assusta-me porque nos vejo caminhar para o abismo. Choca-me porque não me parece que as pessoas vejam o mesmo que eu. Ou, então, a vida é mesmo assim e eu sou mais uma louca demente, dessas que só merecem choques eléctricos e lobotomias.

Então, mas ninguém se indigna com estes discursos da classe política? De que não podemos comparar salários dos administradores públicos (ou o que seja) com os dos comuns cidadãos? Mas porquê? Mas afinal não pertenceremos todos à mesma espécie humana? Não teremos todos o mesmo direito na terra? Não valemos todos o mesmo, independentemente de trabalharmos a terra ou sermos ministros? Não se costuma dizer: “Cada macaco no seu galho”? Sim. Cada macaco no seu galho, com bananas suficientes para comer. Se matarmos todas a aranhas, temos uma invasão de moscas e vice-versa, ou não? Mas por que razão tenho eu de aprender a falar politiquice para que as minhas opiniões se tornem válidas? Não quererá isso dizer que tenho de entrar na máquina de lavar da política, para me lavar a língua-de-trapos e me dotar do discurso próprio de cada mecanismo do poder? Recuso-me. Jamais. Desse detergente quero eu distância. E acreditem que nenhum político nos salvará. Só um pensador, ou uma pessoa senciente e desligada do dito aparelho do Estado.

Mas, a sério, serei eu a única a discernir esta corrida ao dinheiro? Porque é que as pessoas à minha volta estão caladas? É que muito poucos comentam ou opinam… É tão triste e tão desolador ver isso…

Ninguém vê o que se passa na União Europeia? Ninguém vê o que se passa nos EUA? No mundo? Mas será assim tão mais agradável “desligar” o cérebro a ver programas imbecis na televisão ou a ler publicações que deveriam ser proibidas sobre gente que desperdiça dinheiro, desperdiça palmos de terra e desperdiça ar? Não seria muito melhor para todos arregaçar as mangas e ir à luta? Sem partidos. Então não é por de mais evidente que a classe política & Cia Lda. continua a ganhar dinheiro às nossas custas, convencidos, com a arrogância própria de perfeitos metidos a deuses, de que valem mais e sabem mais do que os outros? De que têm “direitos adquiridos”? Tenham santa paciência… O último que ouvir dizer essa atrocidade tem frescos no tecto da casa de campo — sim, casa de campo, enquanto há gente a dormir nas ruas, gente útil, com capacidades e vontade de trabalhar, mas a quem a sociedade não dá tréguas.

Tenho tido uma vida privilegiada, por vários motivos. Não tanto como outros, em termos materiais, mas muito boa em termos emocionais, espirituais e intelectuais. Considero que vivo bem, tendo em conta que ainda durmo numa cama confortável, dentro de uma casa boa. Tendo em conta que tenho uma família compreensiva, cheia de defeitos, mas que me ama. Tendo em conta que sei pensar e raciocinar e que não me deixo abater, por mais que elas doam, pelos ataques dos discursos politiquistas e estupidificantes de quem se deixa arrastar para dentro dessa nefasta máquina de lavar do nosso sistema e já se sente acima dos outros.

Apelo a todos que se indignem. Que se manifestem. Que se insurjam contra este estado de coisas. Que pensem que não faz sentido nenhum andar a recapitalizar bancos e a deixar pessoas sem recursos para sobreviver — facilitando/proporcionando despedimentos, aumentando a carga fiscal, os preços de tudo, etc.

Revoltem-se. Falem. Expressem-se. Vão para as ruas. Recusem-se a pagar os impostos. Mobilizem-se uns pelos outros. Vai ser difícil de uma ou de outra maneira. Mais vale que saiamos nós, o ser humano, a ganhar do que estes parasitas. Que se acabe esta verdadeira corja de fato e gravata, sorriso cínico e carro de alta cilindrada. Todos eles. Que emigre o Parlamento inteiro e nos deixe em paz. Caos por caos, antes assim. Voltemos à terra. E eles que vão todos à fava.

Michelle MVH

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Sábado, 01.10.11

A minha Quinta da Pedra Cavaleira - Versão Melhorada - Em Memória De Alice

 

Todos nós temos reminiscências muito nossas que, por mais que as descrevamos aos outros, jamais poderão ser sentidas, tal como nós as sentimos sob a nossa pele.

            Quando era pequena, passava pelo menos um mês, nas férias do Verão, em Mouraz – uma aldeia muito perto de Tondela, entre tantas outras que por lá nasceram, como o Couço, o Carvalhal e Vila Nova da Rainha.

            O meu avô nasceu por aquelas partes, numa família humilde, mas de grande dignidade e força moral. O pai morreu era ele criança, vítima da pneumónica, da gripe espanhola ou de uma dessas epidemias. A mãe, Maria da Soledade, ficou com os quatro filhos sobreviventes a cargo: duas meninas e dois meninos: o Zé, o Júlio, a Lídia e a Alice.

            O meu avô era o Júlio e o segundo mais velho, depois do Zé. A Alice, que vemos em fotografias antigas, com todo o mistério e encanto que elas nos transmitem, rechonchuda e com o cabelo penteado em cachos, era a mais nova.

            Todos estudaram, menos a mais nova, que ficou sempre ao lado da mãe, a tratar da quinta, a prestar auxílio aos pobres — criando a casa da sopa — e a dar, ela própria, injecções aos aldeões que delas precisavam.

            A tia Lídia formou-se professora, mas, creio que aos 25 anos, já noiva, contraiu anginas e acabou por falecer com uma septicemia. A cama onde ela e a mãe haviam falecido ainda lá esteve em casa muitos anos, com o todo o peso da morte nela.

            O tio Zé tornou-se professor universitário e formou família.

            O meu avô Júlio estudou e juntou-se à Marinha de Guerra, onde fez carreira. Assim que pôde, mandou construir a Quinta da Pedra Cavaleira, para lá morarem a mãe e as irmãs.

            Era uma casa linda, grande e com novidades por ali desconhecidas, como sendo uma casa de banho integrada. Foi chamada Quinta da Pedra cavaleira, pelo facto de diante dela ter existido um desses penedos enormes e escuros, com os ferros onde os cavaleiros de há tantos séculos atrás prendiam os seus cavalos. Sim, porque Mouraz é uma terra milenar. Muito característica, com a Capela da Nossa Senhora da Esperança, no topo de uma colina. Poderia ser ainda mais bonita, não fosse os nossos compatriotas se terem lembrado de fazer uma pedreira mesmo atrás da capela e de destruir um convento antigo que lá havia ao lado, para erigir um cubo inestético de tijolo e cimento que nunca vi sequer pintado, destinado a festas.

            Os estrondos das explosões da pedreira, todos os dias, excepto aos feriados, à mesma hora…

            Voltemos à Quinta da Pedra Cavaleira.

            Era uma casa num tom amarelo pálido ou bege, com as portas e as portadas de madeira pintadas de azul. E tinha uma varanda enorme, que conduzia à entrada principal, no primeiro andar. Era uma varanda encantadora, velha e com as duas barras de protecção ferrugentas, mas que tinham entrelaçado um grosso, viçoso e aromático lilás, de que jorravam cachos, em gloriosas cascatas, no Verão. Por uma das colunas do primeiro patamar das escadas trepava, persistente e intrépida, uma enorme glicínia rosa escuro. A outra coluna, mesmo em baixo, dir-se-ia feita de hera, verde, espessa e húmida. Daí partia, como que em procissão, até à fachada da casa, num esplendor branco, uma roseira de St.ª Teresinha.

            Recordo bem a mescla de cores e aromas com que a casa nos cumprimentava, embalada por um constante zumbido de abelhas e abelhões que lhe povoavam as flores.

            Era uma casa muito degradada mas habitável. E sempre a fervilhar de vida. Plena de gentes, de conversas, sussurros, intrigas e histórias — mirabolantes, cómicas, profundamente tristes ou por de mais assustadoras. Rezas e cantigas.

Não cheguei a conhecer a bisavó Soledade, mas conheci o tio Zé e a tia Alice, que lá moravam, nos tempos da minha infância.

Havia a Bete (Elisabete), que a Tia Alice criou como filha, dois ou três anos mais velha do que eu, e com quem brincava muito, nas férias.

Havia personagens como a Fernanda, que lá trabalhava, sobretudo na cozinha, mas também na horta e no barracão, a tratar dos animais e que, sempre que a minha tia a chamava, do outro lado da quinta, lhe respondia com um som seu muito típico, numa espécie de uivado. Todos gostávamos de o repetir, assim que o ouvíamos a atravessar a quinta, como uma flecha.

Havia duas tias Anitas, que não eram minhas tias, mas que assim se chamavam para nós. De uma delas mal me lembro. Sei que vivia intermitentemente numa casita anexa, misteriosa, ao lado do barracão — uma mulher de buço pronunciado, cabelo curto escuro e toda vestida de preto. A outra tia Anitas era uma velhota toda encurvada, desdentada, sempre vestida com camadas e camadas de saias, de cabelo grisalho e oleoso, numa trança presa na nuca. Andava sempre descalça e não tinha dois dedos num pé. Imaginava muitas vezes que os teria decepado, com a sachola, a cuidar da horta. Gostava dessa segunda tia Anitas, mas confesso que nunca me aproximava muito dela. Cheirava a urina e a comida velha. E não ajudava nada vê-la sentada no chão, à porta da cozinha, com as mãos mergulhadas num alguidar que colocava entre as pernas, cheio de sangue e vísceras de porco.

Havia a Maria, que também fora lá criada e que lá morava e ajudava governar a quinta. Não me recordo muito dela, a não ser dos mexericos que estalavam das bocas alheias, em sussurros e olhares suspeitos. Gritava bastante connosco, os miúdos.

E o tio Zé que, para nós, era uma figura muito característica. Não nos dava muita — ou nenhuma — atenção e, por vezes, até era bastante antipático, mas desconfio que seria por se dar conta que passávamos o tempo a gozar com ele. Era gordo e careca. Sentava-se sempre à cabeceira da mesa e era o primeiro a ser servido. Prendia um enorme guardanapo de pano à volta do pescoço para poder comer à vontade, sem sujar a roupa. E se comia! Nós, mortinhos de riso, a observar-lhe o queixo reluzente de gordura e salpicado de grãos de arroz. Lançava olhares ansiosos às travessas sempre que alguém se servia de mais uma porção. Mas era engraçado. Um dia foi-se dali, escorraçado, com a Maria, ambos protagonistas de um escândalo. Era pequena e a minha opinião seguia a voz dos meus pais.

Havia a Maria da Luz, casada com o Sr. Vermelho (não sei o nome dele, só a alcunha, a condizer com as bochechas inchadas e ruborizadas) e sempre bem-disposta, a cantarolar.

O Sr. Custódio e a Dona Rosalina, pais do Rui, mais velho do que eu, de cabelo encaracolado e sempre empoleirado na sua bicicleta.

E o Manel Tolo.

            O Manel Tolo parava por ali muitas vezes. Aparecia nas escadas de pedra que davam para a cozinha, nas traseiras da casa, onde se sentava à espera da sua caneca de vinho e de algo para comer — creio que pedia água fervida com açúcar, ou algo peculiar, desse género. Era um velhote escanzelado e vergado, sempre com um pau comprido para se apoiar, que falava sozinho, esbracejando. Por isso o chamavam Manel Tolo. Porque era tolo. Nós, como crianças que éramos e sendo as crianças um pouco cruéis, entretínhamo-nos a dar-lhe um papel com qualquer coisa para ele ler, pois ele pegava no que fosse que ostentasse letras, às vezes de pernas para o ar, e recitava a mesma frase sem nexo, repetidamente. Mas não era nenhum parvo. Lembro-me de uma empregada muito jovem que por lá parou uns tempos que o maltratava muito. Certa ocasião, o Manel Tolo encontrou-a a tratar dos porcos, na pocilga, e aproveitou para se vingar, trancando-a lá dentro, com as ratazanas e uma porca do tamanho de uma vaca.

            Passo a descrever a quinta.

            A casa tinha três andares e um sótão, onde nunca fui e que só era acessível através de um alçapão no tecto do corredor.

            No piso térreo ficava a “loja”, onde outrora se fizera vinho. Tinha um lagar abandonado — julgo que ainda lá vi pipas grandes —, dois quartitos e uma despensa. Não tinha janelas, mas sim “gateiras”, que eram daquelas janelas altas e pequenas, sem vidros e com uma barra de ferro ao meio, por onde costumavam entrar os gatos fregueses da quinta. Sim, porque lá em casa ninguém tinha gatos. Os gatos é que tinham a casa, entrando e saindo pelas ditas gateiras a seu bel-prazer, para se alimentarem dos restos que a Fernanda e a tia Alice lhes deixavam na cozinha ou dos ratitos campestres que se atreviam a lá entrar. Lembro-me do Martelão e da Xaninha. O Martelão, tal como o próprio nome indica, era um gato gigantesco, com uma cabeça desproporcionadamente grande. Era selvagem, mas gostava da tia Alice. A Xaninha era a gatinha que mais por ali parava, sempre com ninhadas novas, a cada Verão, que eu tanto me esforçava por encontrar, para poder brincar com os gatinhos, ou para impedir que as tias Anitas e afins os apanhassem e enterrassem, como era costume. Seguia-a pelo quintal fora para ver onde é que ela os escondia.

            A loja era escura, poeirenta, misteriosa, assustadora. Exalava dias a preto e branco. Tudo o que lá se encontrava estava partido, rasgado, estragado, surrado. Havia pedaços de mobílias, caixotes, arcas, garrafas, garrafões, roupa velha, trapos, cebolas em tranças, malas velhas. Uma enorme arca congeladora destacava-se num dos quartos, solitária e fria. A abarrotar, assobiando discretamente. As escadas de acesso à casa eram de madeira esburacada pelos bichos e gemiam, aflitas, sob as nossas pisadas. Tinha medo de estar sozinha na loja. Povoada de destroços do passado, percorridos por aranhas gordas e peludas. Mas era na loja que se instalavam os trabalhadores que vinham para a apanha da batata. Sentavam-se lá, alegres e cheios de vida, pela fresca, antes de começarem a trabalhar, e à hora de almoço, a comerem pratadas de feijão com massa e carne, regadas a vinho tinto. Era na loja que se pendurava o porco, depois de morto e esventrado. Humilhado, dependurado e triste. De dentes arreganhados.

            O primeiro andar era como o de tantas outras casas. Nada a assinalar. Tinha uma sala de estar e de jantar, um escritório (do tio Zé), a chamada salita onde estava o frigorífico e o telefone — com um contador, porque era o único naquelas bandas e muitas pessoas o iam lá usar — e onde se tratava da roupa. Depois, havia uma despensa estreitinha, com as paredes de uma cor indiscernível, forrada de prateleiras. Escura e peganhenta e gordurosa e bolorenta e recôndita. Ao lado era a cozinha. Velha, maltratada e, sobretudo, imunda. Mas adorável. Os móveis de madeira desfaziam-se, com o uso e o tempo. As gavetas estavam todas empenadas. Da pia de pedra espreitava um alguidar seboso e com água sebenta, onde se passavam os pratos sujos, antes de serem lavados, para depois se dar essa mistela aos porcos.

            No Verão, a cozinha era invadida de pequenas e gordas moscas pretas. Moles e ousadas. Que pousam e se fixam em todo o lado, como se tivessem ventosas. A seguir ao almoço, quando fazia demasiado calor para estar lá fora e todos os adultos iam dormir a sesta para a varanda ou para os quartos, o meu entretenimento, para além de jogar às cartas, era matar, infernizar e torturar as moscas da cozinha. A meta era apanhá-las a todas. Coisa bastante difícil — há que referir. E no ar do primeiro andar da casa passava a pairar um forte odor a morte: a entranhas de mosca.

            Era muito característica, a casa da quinta da minha infância.

Velha, podre, suja e cheia de moscas.

Onde o relógio nos marcava o ritmo, o dia inteiro, sentado numa mesa, no patamar das escadas para o segundo andar. Indolente e tranquilizador.

Onde a gaveta central do aparador da sala de jantar guardava com desvelo os doces que sobravam das refeições — leite-creme, arroz-doce, aletria — e os que a tia Alice nos preparava para o lanche ou para matar a fome — pão-de-ló, torta de limão, bolinhos de azeite. Estava toda forrada com um papel autocolante, aos quadradinhos azuis e brancos. Era pegajosa. Tinha migalhas e diminutos restos de alimentos antigos e ressequidos, agarrados por todas as partes. Mas transbordava de amor e boa vontade.

            Todos os anos a tia Alice produzia compotas em série, para distribuir por toda a família. Geleia de marmelo, marmelada, compota de maçã, doce de pêssego, doce de melão, doce de figo, doce de amora… Ia eu apanhar as amoras, no fim do Verão, para o bosque, com uma cesta, voltando para casa com os dentes negros de tantas comer.

Era especialidade da tia Alice preparar-me uma “malgada”, uma mistura muito inventiva, de iogurte, fruta, compota, carinho e dedicação, tudo batido. O contraste do fresco no calor da tarde. As malgas rachadas mas plenas de história.

            No segundo andar eram os quartos e a única casa de banho da casa, muitíssimo concorrida. A ponto de, por vezes, nos vermos forçados a ir “à vinha”. Quando o tio Zé lá entrava, todas as manhãs, e ligava o rádio, não havia outra hipótese. Ou chegávamos antes ou o melhor era mesmo o ar livre.

            A casa de banho tinha uma banheira antiga, pesada com pernas que parecem querer saltar, num ápice, dali para fora, em pequenas passadas metálicas. O duche raquítico, a escorrer lamúrias tépidas, tão impotente, no Inverno.

            Lareira, só na sala, aninhada num canto, escura, quente e com aromas outonais.

            Como dizia eu, no segundo andar havia o quartinho azul-claro, onde costumava dormir eu ou os meus pais. O quarto azul-escuro, onde dormiam os putos todos, o quartinho do meio, com duas camas, onde dormia a tia Alice, a Bete e, às vezes, uma ou outra empregada. Ao fundo do corredor ficava o quarto dos meus avós, com uma enorme e confortável cama, mesmo por cima da sala e mais quente do que os outros quartos, por ter a lareira no andar de baixo. À frente deste quarto ficava o quarto do tio Zé, também ele azul-claro, grande, luminoso, arejado, interdito.

            O jardim, a horta e o barracão.

            O jardim da casa distribuía-se sobretudo ao redor da casa. À frente tínhamos um castanheiro, espreguiçando-se sobranceiramente e protegendo-nos do sol abrasador com os compridos e pesados ramos sarapintados de espinhosos ouriços verdes. Depois, havia as oliveiras, aqui e ali, a marcar a sua presença, em formas retorcidas, teimosas e secas. No chão, entre elas, há muitos anos, enrolei-me numa manta, com os meus irmãos, a contemplar o céu mais estrelado de que tenho memória, ao som das gravações deles, com uma suave música dos anos 80, em harmonia com os grilos.

            Adorava trepar pelas oliveiras. E todas tinham o seu grau de dificuldade. A mais fácil estava perto do castanheiro, à beira da estrada, mesmo junto ao muro de pedra. Mais ou menos pela altura da minha cintura, o tronco dividia-se em duas ramadas grossas, por onde podíamos trepar com facilidade. A de grau intermédio era do outro lado da casa, perto das traseiras. E a mais difícil ficava junto da varanda. O único ramo por onde nos podíamos içar era alto. Antes de o conseguir alcançar, a minha meta era lá instalar um baloiço. Adorava baloiços e queria por força ter um. Todos os anos lá andava eu a moer o juízo à tia Alice e ao avô Júlio para pendurarem um baloiço. E houve várias tentativas, salvo erro, até, com um pneu, mas todas frustradas. Até que consegui alcançar o ramo, com as pontas dos dedos e em bicos dos pés. Esperançosa. Toda esticadinha. Os dedos dos pés quase, quase a descolarem do chão, doridos. Era um exercício diário, tentar agarrar aquele ramo esquivo. Um dia, lá me consegui içar. Depois, perdi o interesse.

            O jardim tinha algumas flores, em grupos. Havia um pequeno jardim, com rosas e outras dessas flores certinhas e convencionais. Todas empertigadas. Impacientes. Estava tudo muito arrumadinho, nesse canto. Só uma árvore de copa redonda e resistente me chamava a atenção, por o meu avô a ter abraçado, para não cair, quando lhe escapou de debaixo dos pés o escadote. Foi uma cena caricata que se me imprimiu na memória, com direito a imagens de cores desgastadas pelo tempo e risos distantes. O meu avô era uma fonte inesgotável desse tipo de peripécias. Alto e careca, com o porte de um militar, mas descontraído, de boné na cabeça e tamancos de madeira com os dedos à mostra. Usava uns óculos escuros, tipo mosca, e andava numa azáfama dedicada, de tesoura da poda em riste. E a pobre tia Alice a mandar as empregadas vigiarem-no, para que não lhe podasse o jardim inteiro, sem piedade.

            Nas traseiras da casa estava o telheiro que abrigava o Renault 5 do tio Zé, timidamente encostado à varanda da casa que se fundia com ele por entre os ramos dos lilases. Adorava ir lá para cima, sentir-lhe a superfície de zinco morno, a estremecer com o meu peso. Só o fazia para contrariar as ordens dos adultos. Era esse o seu fascínio.

Sobre esse telheiro descansavam também os compridos braços de duas laranjeiras. Os óculos do meu avô ficaram pendurados numa delas, esquecidos, mas a marcar para sempre a sua presença. Davam laranjas doces e sumarentas.

Ao pé da cozinha e quase diante das laranjeiras, erguia-se um limoeiro. Parecia solitário, ali, ao lado das escadas da cozinha, tentando agarrar-se à extremidade da varanda. Era aí, nesse canto mais escuro, todo enfeitado de limões, que o meu avô se acomodava numa cadeira acolchoada e articulável — disputada por todos, quando ele não a usava — a dormir a sesta, com o boné a cobrir-lhe os olhos. Debaixo desse limoeiro foram enterrados, pelo menos, dois dos cães da família cujos cadáveres transladávamos de Lisboa, chorosos.

            Entre a casa e o barracão, lá para trás, havia vinhas, a horta, e um campo onde brotavam plantas e flores selvagens. Vejo-o coberto de erva alta e flores miudinhas amarelas, a fervilhar de joaninhas. Coleccionava as joaninhas, fascinada, guardando-as numa caixa redonda de gelado. Quando enchia a caixa, abria-a e soltava-as todas ao mesmo tempo, enquanto corria, por entre as flores.

            A horta era de um dos lados da casa, ao lado da zona do castanheiro, e estava bordejada de árvores de fruto, formando um corredor, no meio, onde ficava o estendal e que conduzia ao poço.

O poço era, não só a estrutura em si, mas todo o local mágico que o rodeava. Adorava sentar-me em cima da boca do poço, sobre o cimento rugoso e aquecido pelo sol, ao fim da tarde, sozinha, a pensar e a escrever. Sentia um enorme encanto pelas majestosas e temíveis profundezas que se escondiam abaixo de mim, descendo em espiral, para lá de uma portinhola de ferro enferrujado. À volta cresciam, mágicos, tufos de trevos de quatro folhas.

Ao pé do poço ficava o tanque. Enorme. Sujo. Umas vezes vazio, outras vezes, semi-cheio de água verde e pantanosa e, outras ainda, a transbordar de água velha ensaboada. Mas lavava-se lá roupa, num pequeno compartimento à parte, com uma torneira de onde saía, a gritar, a água gelada do poço.

Ao lado do tanque crescia, esplendorosa, a cerejeira. Era a minha árvore preferida. Delirava por ir para Mouraz logo no início das férias do Verão, pois era quando apanhava as cerejas maduras. Se tivesse a sorte de lá ficar sozinha, sem pais nem avós para me importunarem com regras de gente da cidade, trepava por um escadote podre até ao ramo grosso mais baixo e instalava-me num sítio especial que a Bete me indicara: num ramo que ficava no meio de outros dois, mas mais abaixo. Sentava-me nele, encostava-me num dos mais elevados atrás de mim e apoiava as mãos no outro à minha frente. A partir daí, era só arrancar as cerejas, comê-las e cuspir os caroços para o chão…

Ao pé do poço, mas do outro lado, havia também a figueira, de ramos baixos, escura, sisuda e compenetrada, mas impregnada de figos docíssimos que raramente conseguia provar, uma vez que só amadureciam quando eu já tinha voltado para Lisboa.

            Do poço saía um carreirinho, cortando a horta, a direito, para alcançar o pessegueiro, a ameixoeira e a tangerineira, antes de desembocar no barracão, passando pela taciturna casa da tia Anitas. Um outro carreiro rivalizava com ele, exactamente do lado oposto da casa, para lá da vinha que se interpunha, correndo, apressado, entre as escadas da cozinha e o barracão. Nesse lado, estava a coelheira, para cujo telhado de cimento se subia de um só salto, devido ao desnível do terreno. Também gostava de lá me sentar, a contemplar a vista panorâmica do campo à minha volta — não fosse lá estar um par de colmeias improvisadas cheias de abelhas a bulir, ameaçadoras.

            No barracão havia um forno de pão que ninguém usava. Uma pocilga enorme, uma capoeira, um amplo anexo ora cheio de pintos, ora cheio de batatas, uma coelheira, um telheiro a cair de podre, onde se costumava empilhar lenha, um pequeno tanque para patos e, claro está, a misteriosa casa da tia Anitas cuja janelita tantas vezes tentei arrombar, porque queria, por força, brincar lá dentro. Nunca consegui, até porque no dia em que finalmente desloquei o vidro da moldura de madeira da janela com uma chave de fendas e espreitei para a escuridão, tive demasiado medo de entrar.

            Lembro-me do fedor da coelheira e do calor que fazia dentro da casa dos pintos. Lembro-me da tia Anitas com a Bete a degolarem galinhas, rindo-se da minha expressão de horror, como se eu fosse o “copinho de leite” lá de Lisboa. Como se divertiam elas a dizer-me para não ter pena dos bichos, ou eles não morreriam logo, e sofreriam mais. Entretanto, a galinha corria decapitada, aos esses, perante o meu olhar perplexo.

            Lembro-me de que, num Verão que lá passei sozinha com a tia Alice e a Bete, numa altura muito difícil da minha vida, me entretinha no barracão a cobrir de terra a flor amarela do amendoim, seguindo as instruções da minha tia, sempre cheia de mimos e cuidados.

            Em todo o jardim da casa, não havia relva, dessas tipo campo de golpe. O chão era irregular, duro, de terra poeirenta e esbranquiçada, com tufos de erva seca. É certo que a terra árida me arrepia, mas a de Mouraz era a excepção.

            A casa estava podre. Tinha tudo partido. Havia ratos, gatos, aranhas e de tudo um pouco.

            Mas o velho e sujo fogão de lenha da cozinha imunda estava sempre quente e cheio de tachos em cima. Tachos altos e gordos. A fumegar, com as mais exóticas misturas de restos para dar aos porcos, ou com afáveis cozinhados. Caldo Verde, arroz de cabidela, feijoada.

            As janelas estavam todas empenadas e tinham os vidros ora rachados, ora partidos, com fita-cola e pedaços de plástico a proteger. As portadas rangiam e crivavam-nos as mãos de farpas.

            Mas a diminuta sala de estar era sempre convidativa, com sofás velhos e desgastados que vinham de Lisboa, quando alguém da família resolvia comprar um novo. Era tão bom lá passar a tarde, a jogar às cartas e a comer aquilo que a gaveta nos oferecia, como uma língua estendida.

            Agora, a casa é branca. Com portadas de alumínio verdes.

            A loja foi transformada, como sempre se planeou, em sala de estar e quartos.

            A cozinha desapareceu e migrou para outra parte da casa, acrescida de uma extensão. No lugar da cozinha, apagando-lhe a história, está a sala de jantar. A despensa já não existe com o seu insondável recheio. A cozinha é como tantas outras. Limpa e branca. Cheia de armários e electrodomésticos. Não vemos lá as facas velhas mas afiadas, com que a tia Alice cortava a couve para fazer caldo-verde. Não vemos lá os inúmeros tachos sebosos, a fumegar e a exalar diferentes e confusos odores. O velho fogão de lenha foi substituído por um novo que, amedrontado, se esconde no canto das traseiras da cozinha. Nunca está quente.

            Lá em cima, perdeu-se um quarto, para se fazer mais uma casa de banho. Já ninguém tem de ir à vinha. A mobília dos quartos está sempre impecavelmente limpa e arranjada. Já nada range, já nada se parte, já nada tem pó ou coisas agarradas. As teias de aranha foram-se. E a banheira antiga saltou mesmo de onde estava, para as traseiras da casa, onde cumprimenta quem chega e sai do carro, verde e com um sorriso de flores.

            O relógio ainda marca o ritmo, no seu posto, revigorado. Mas as escadas já não são perigosas nem assustadoras. A luz que o banha, à noite, já não nos tenta intimidar, à passagem para o segundo andar.

            Muitas das árvores de fruto, sobretudo as mais velhas e raquíticas, desapareceram, juntamente com algumas oliveiras, e levaram com elas o castanheiro que secou, triste e acabrunhado.

            A terra dura, irregular e poeirenta transformou-se num imaculado, fofo e liso relvado, por onde já não deambulam cães ou gatos, impedidos de lhe aceder pelo muro que agora envolve a quinta.

            Já lá se recorta uma piscina, como todos sempre desejaram. Mas a vinha por entre cujas filas brincava, a correr atrás do meu cão ou das galinhas tresloucadas que fugiam da capoeira, já só me cresce na memória. No entardecer, com uvas verdes de travo ácido e correrias. Gargalhadas de cabelos ensopados e peganhentos, com bagos pendurados.

            O barracão desapareceu. Com ele desapareceram os porcos, os patos e os coelhos. A casa da tia Anitas e o telheiro da lenha. Está lá uma enorme garagem. O chão foi coberto de pedra cinzenta quadrada. As galinhas ainda puderam ficar, mas foram escondidas numa pequena capoeira, ao lado da garagem, mas mais recuada, e já não as vemos, não as ouvimos nem as cheiramos.

            Onde antes estava a coelheira, uma das pocilgas, o telheiro da lenha e a casa da tia Anitas, está agora outra casa, mais moderna, toda equipada e confortável. E um telheiro que acolhe um barco.

            Já não vou lá, à casa que o meu avô mandou construir e à terra para onde sempre fui, quando tinha de tomar alguma decisão difícil. Onde me recuperei de um grave problema. E onde me sinto sempre estranhamente diferente. Tranquila. Bem-disposta. Em paz comigo mesma.

            A tia Alice ainda lá viveu muitos anos, mas, devido à idade, como uma eremita. Mal andava e tinha-se instalado num quarto onde antes era a loja, para não ter de subir e descer escadas. Já não cozinhava os seus acepipes. Já não ajudava ninguém. Já não conversava connosco. E já ninguém conversava com ela.

            Tudo muda.

            Eu mudei. Ela mudou e partiu. Nós todos mudámos.

            Da última vez que lá estive — há anos — deitei-me várias vezes no tapete de grossa relva húmida, estendida e descalça, para sentir em mim a energia da quinta, peça integrante do meu ser. Permeada de noites estreladas, em chão rude e seco.

            Nos últimos dias que lá passei, saí muitas vezes de carro, ao fim da tarde, sob um qualquer pretexto, só para poder seguir, devagar, por entre as aldeias, a contemplar a paisagem, de janela aberta, a inspirar os aromas do campo e a sentir as carícias do ar húmido do entardecer. A ouvir a melodia do meu campo, num cenário de ocaso, pintado de cores quentes.

            Tirei muitas fotografias, mas, para dizer a verdade, não tantas como as que pretendia inicialmente, pois, a meio da tarefa apercebi-me de que o que queria registar em imagens já não existia. Já estava enterrado no passado. Mas bem vivo na minha memória.

            Aceito que tudo muda, forçosamente, e que assim deve ser.

            Sei bem que umas coisas acabam e outras começam, para, depois, acabarem, num ciclo sempre igual.

            O que tanto me dá conforto são as memórias que retenho das coisas que já não são, porque tiveram de deixar de o ser. Como tudo o resto.

            É estranho que não sinta propriamente saudades. Apenas sinto estas recordações tão a fundo que é como se as vivesse, vezes sem conta, numa espécie de ida e vinda permanente, entre tempos paralelos e vidas sobrepostas.

            As reminiscências da minha Quinta da Pedra Cavaleira são minhas e singulares. Ninguém mais as tem como eu. Ninguém as vive como eu. E ninguém mas pode tirar. São minhas.

 

Michelle MVH. Em Memória de Alice que partiu a 01-10-2011.

Michelle MVH

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Sexta-feira, 30.09.11

O transbordante fel do interior

 

São ódios e ressentimentos fervilhantes num corpo que a raiva deforma.

 

 

 

 

 

 

 

Encerraste-te nessa vida infeliz, com grades frias de receios e normas.

 

O teu forte erige-se de aparências e ilusões, atrás de um fosso de mágoas .

Defendes um atemorizante vácuo, com as garras afiadas dos teus pecados.

 

Criticas a vida que não é a tua, por se te escaparem outros significados. 

Como ínfimos grãos de areia, deslizam-te as emoções por entre os dedos.

 

É assoberbante a solidão, atrás do eu, já tão longe do que antes eras tu.

 

 

Receias dissolver-te em palavras, gestos e expressões que comprazem.

 

 

O frio das coisas táteis extingue-te as sibilantes labaredas da compaixão.

Em repreensões remoem as amizades e os amores evaporam no ar seco.


Tens a dura fachada cinzenta, tenebrosa e sustentada por vigas corroídas.

Esse interior exala um ar fétido e podre e tóxico, em rancores e orgulhos.

 

As propriedades abatem-se-te, enquanto as memórias perduram verdes.

As ossadas desfazem-se-te em pó, enquanto as almas viajam no etéreo.

 

A vida é pulsante, é quente e não se contém com trancas, cadeados, chaves.

Consomes-te desfiguras-te e poluis-te; tudo consomes desfiguras e poluis.

 

Michelle MVH

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Sábado, 03.09.11

...

But While the Eternal One Created Me, He Word By Word Spelt Out My Lesson, Love, and Seized My Heart and from a Fragment Cut Keys to the Storehouse of Reality.

Omar Chayam, Springs of Persian Wisdom

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expelido por Michelle MVH às 19:58 | link do post | comentar

Eu e os meus Irmãos

Há muitos anos, conhecia uma esteticista que era uma enfermeira reformada.

Ia muitas vezes a casa dela e já havíamos desenvolvido uma certa relação de confiança, na medida em que o permitia a minha timidez.

Um dia, quando lá cheguei, notei-a um pouco perturbada. Pareceu-me até que tinha chorado e que estava prestes a chorar novamente.

Já não sei se fui eu que lhe perguntei o que se passava — duvido, pois teria certamente vergonha de o fazer — ou se foi ela que decidiu contar-me.

Tinha acabado de receber a notícia da morte de um irmão.

Fiquei perplexa e até lhe disse que me ia embora, para a deixar sossegada.

Ela respondeu que não era preciso pois não se dava com o irmão havia muitos anos. Não o via havia anos.

Estava visivelmente despedaçada.

Era uma mulher muito voltada para o racional — como tantas pessoas que conheço. Dizia para com ela própria e aos outros que aquilo não tinha importância nenhuma.

Mas tinha.

Estava visivelmente abalada.

Tenho dois irmãos, com uma razoável diferença de idades — sou a mais nova.

Devo dizer que fiquei a matutar naquilo. E nunca mais me esqueci dessa ocasião.

Sempre mantive uma relação muito tremida com os meus irmãos. A diferença de idades entre eles é de um ano, ao passo que, em relação a mim, é de seis e sete anos.

Um e outro são muito próximos. Apesar de muito diferentes, têm uma enorme cumplicidade. Como seria normal. Comigo, não. Como seria normal, não só pela diferença de idades e de género, mas também pelo facto de eu ter vivido bastante tempo separada deles.

Eu e os meus irmãos mantemos relações complicadas, fortemente marcadas pelo passado. Ao longo dos anos, ora discutíamos, ora convivíamos, ora cortávamos relações, ora nos reuníamos.

Afinal de contas, somos irmãos.

O nosso percurso de vida foi muito complicado. Sofri muito por causa deles. A minha vida foi intensamente fustigada pelas escolhas que eles fizeram. A minha forma de ser, ditada pelo ambiente que eles ajudaram a criar.

Passei muitas épocas sem falar com um ou com outro. Criticava-os. Olhava-os de esguelha. Desconfiava deles.

Não posso dizer que não o faça ainda — e eles sabem-no — mas algo mudou em mim.

Os anos — a idade, a maturidade, seja o que for — fizeram-me encarar a minha relação com eles sob outra perspectiva.

Afinal de contas, somos irmãos.

Talvez seja característica da minha família imediata: pensamos com o coração. É-nos complicado pisar nas emoções. Isso pode ser desvantajoso, porque sentimos tudo intensamente. Vivemos as coisas ao extremo.

Certo é que, ao fim de tantos anos, e tendo passado pelas experiências que passei, pelo desgaste emocional, entre tantas outras coisas, não gostaria que fôssemos diferentes. Assim devemos ser: regidos pelo coração.

Amamo-nos uns aos outros, independentemente de tudo. Discutimos, guerreamos e censuramo-nos; interpretamo-nos mal, uns aos outros; fazemos juízos de valor, uns dos outros; mas, arrefecidos e acalmados, retomamos os laços que nos unem. Jamais deixamos que esses laços se esfumem.

Afinal de contas, somos irmãos.

Não sei como será o futuro.

Olho para a relação que os meus pais tinham com os irmãos e reflicto.

Ao fim de muitos anos de querelas e separação total, o meu pai reconciliou-se com os dois irmãos.

Pouco tempo depois, os irmãos morreram. Entretanto, perderam-se anos.

A minha mãe não consegue, por mais que tente, chegar à irmã — no caso dela, julgo que nem no leito da morte conseguirá uma reconciliação. Tais são as diferenças. Tais são os ressentimentos.

Entre irmãos não pode haver lugar a rancores, rivalidades e ciúmes. Pelo menos, não eternamente.

Não percebo. Por mais voltas que dê, não o compreendo.

Sei que não me quero rever na esteticista, enfermeira reformada, que conhecia há muitos anos.

Amo os meus irmãos.

Umas vezes, aceito-lhes os defeitos, outras não. Sei que o sentimento é mútuo.

Mas aprendi a distanciar-me.

O segredo talvez seja saber quando falar e quando não falar.

Saber esperar.

Saber perdoar e, sobretudo, saber tolerar.

Saber falar com o coração.

Afinal de contas, somos irmãos…

Michelle MVH

expelido por Michelle MVH às 19:33 | link do post | comentar

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  • Já não se fazem crianças como antigamente... ehehe...
  • LOL o meu voto vai para.... a filha :D
  • Quase me esquecia de cá vir agradecer. Obrigada!!!
  • Muito obrigada pela visita!
  • Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou ...

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